Mês: julho 2014

Procura-se um sol

A igualdade dos olhos e dos erros de todos constrói uma atmosfera sem evolução. Todos seguem as mesmas linhas, todos são usados e desprezados, todos estão perdidos em sua própria escuridão. Se o mundo acabar, o teto desabar ou o chão os engolir, irão todos juntos, ninguém vai cair em si.

O ar que respiramos e as nuvens que vemos no céu nos remetem aos piores dias de nossas vidas: ontem e hoje. A depressão paira sobre todos, como a guerra que se aproxima nitidamente, mas ninguém ousa admitir. Os personagens deste cotidiano soam tão pueris, alguns aceitaram sua condição de meros pedaços de papel riscado por uma atitude omissa que ninguém se importa.

A tristeza está no âmago destas criaturas, ela é um câncer profundo que se alastra pelo corpo. Assim como uma doença, é visível em suas faces. Mesmo assim, ninguém deixa as lágrimas, que escorrem pela sobrancelha e por debaixo dos olhos quando choram deitados, escaparem de seus cortes profundos, da sua babaquice inerente, da sua vida bagunçada.

Arrumam suas mesinhas, suas coisinhas, suas mãozinhas como em seus sonhos e permanecem sem acordar. A realidade, como entidade inescrupulosa que é, agride os pequenos cidadãos inocentes com seu punho teso e gelado. As crianças saem desesperadas deixando pedaços de borracha em cima da mesa, para que as outras encontrem o mesmo terror ao se aproximar de seu antigo cenário mórbido.

Sei que ando nas mesmas linhas que todos, sou tão descartável e vazia quanto todos. Mas eu os vejo. Observo como se movem, como se frustram e, embora estejam completamente subjugados ao desgosto, atuam harmoniosamente.

E eu? Eu que me encontro nas rugas de suas vidas, no canto mais obscuro de seu comportamento, a observá-los passando em minha frente, sei que dentro de mim o cancro que me escraviza é o anseio por mudança. A minha diferença deles, que me esforço em esconder, borbulha e entra em erupção. Sai pela boca quando falo, vive em meus olhos quanto me emociono e é retumbante em meu peito quando a paixão me domina.

Comi minha comida sem filtros, saí de casa sem óculos escuros. Não vejo o sol, mas sou sincera. Sou como os outros, sou como qualquer um e não valho mais do que ninguém. Por dentro, sei que as diferenças são explícitas, uns mais cheios de nada do que outros.

Só o que busco é a luz, queria emanar de mim tamanho fulgor que traz o sol e tocar o coração destes escravos e libertá-los. Todos. Sei que quando puderem sentir e ver o mundo com metade ou dez vezes mais resplandecência do que vejo, a tristeza os tocará novamente. O mundo tem grandes porções de coisas ruins. Neste breu, distante vê-se uma estrela. Aproxima-se a libertação, quando entenderem que, de perto, é o Sol que veem.

Quando o dia nasce, isento de metáforas, e o clima é favorável, a manhã faz tudo parecer puro, com sua essência sincera. O frio é acolhedor, o vento é confortável, o calor é ameno. Os raios de sol que entram pela janela parecem mais verdadeiros, consigo ver a beleza do mundo, os sentimentos são concretos.

A mesma luz que há de matar os vampiros tende a me ressuscitar. Nesses dias a própria vida que me preenche é pura luminosidade, mas sei que não preenche a todos. Pela mesma janela que entra a luz divina, vejo os mortos. Procuro um farol que possa nos abençoar, estão todos morrendo, mas quero viver.

A Banalização do Amor – Parte 1

Sinto-me extremamente cansada o tempo todo e agora a sensação é de bagunça em minha mente. Já está tarde e queria escrever essas palavras sobre alguém. Como as conversas com este indivíduo sempre aconteceram em horários mais noturnos e ele sempre entendeu a minha desordem sei que não há momento melhor.

Abro nessas linhas minha vida, meu coração e as coisas que vão além da carne para que sejam vistas. Visto a fantasia mais sincera, coloco a poesia em uma gaveta e pergunto-te, leitor, o que é o amor? Essa coisa classificada como “sentimento”, definitivamente tão confusa, é o que me obriga a tais ousadias. Ouso dizer que amor não passa de uma palavra e, como as coisas que acontecem em mim merecem muito mais do que um único vocábulo para serem descritas, acredito que tenham banalizado completamente a experiência de “amar”.

Seu nome é João. Eu ainda não havia assistido Beleza Americana para falar-lhe como a ideia sobre as belezas do mundo está esculpida no filme, mas ele sabe das minhas ideias. Com ele foi paixão às três palavras: livros, filmes e músicas. Seus livros comprados no metrô e as minhas investidas excêntricas na biblioteca da escola, seu computador que estragou e os eternos lamentos sobre a incompetência de Netflix num tablet e, sempre, Tame Impala. Nosso cotidiano coincidia, mas nossa visão não.

Falar sobre as belezas do mundo levou-me a repetir frases de películas cinematográficas. Veja como a palavra “ousada” soa infantil, mas é a única que retrata minha atitude. “Paixão sente-se no peito, amor sente-se na barriga” e faço a descoberta do século: ele não tem os mesmos olhos que eu para a beleza. Sabemos que dessa conversa saiu a verdade, no peito sentíamos vazio, na barriga sentíamos fome. João tinha, e acredito que ainda tenha, olhos para o mundo como ele é.

João é a verdade da minha vida. Entre todos os rostos barbados, corações mastigados e palavras suadas ele trouxe sinceridade aos meus dias. Nas tardes mais melancólicas em que eu tentava trocar minha tristeza por um pouco de poesia, esse ser humano destruiu qualquer tentativa minha de extrair graça das flores.

Ao que a imagem dessa criatura pode parecer com a de um assassino dos instintos mais sublimes dos homens, engana-se em sua interpretação quem assim o julgar. Ele faz um verbete infame passear pelo meu estômago e pela minha mente. Minhas dores ferem ainda mais o peito, mas este microcosmo é um emplasto de compreensão.

Sim, compreensão. Com João minhas dores, meus pensamentos e a minha vida são puros. Um universo exatamente assim, sem enfeites, sem adjetivos, sem dicionários. A porra do planeta Terra, o pontinho pálido, com todos os preconceitos, seus olhares sinceros e poucas vezes inocentes. Nosso mundinho da sujeira, dos pelos pubianos, dos vídeos pornográficos, dos seriados televisivos e do amor aos psicopatas.

E finalmente, não pensem que por seu jeito ser assim não há beleza nele. É com ele que eu me encontro. Não há beleza na verdade? Na justiça? Na própria dor? Esse cara não é um herói, um personagem ou mero sujeito das minhas frases. João ao trazer a verdade, a certeza e a sinceridade ao mundo, traz a afirmação da beleza que há ao nosso redor. Mostra-me sempre a evidência de que é no banal e nessas dores comuns, como a do tal amor, que a essência de ser humano está.

Assim como me traz asseveração e ousadias, uso seu nome pela última vez para tentar explicar a banalidade da própria palavra: amo João e não é só pela sua verdade ou humanidade. Podem contar quantas palavras este texto tem e saibam que não vai valer a pena resumir tudo isso e tantas outras coisas que nos envolvem com um único termo.

Eu sou o espaço

As pessoas sentem medo daquilo que desconhecem. Olho para o céu e tenho medo dele. Não como olho para o teto do meu apartamento e temo-o, com o céu há beleza. Não sei como o teto ou as partes deste prédio se sustentam. Estou consciente dos pilares e do concreto, mas é tanto peso… Meu prédio é incompreensível.

E muito mais incompreensível do que um prédio, é o céu. Assim como aqui na Terra temos nossos próprios questionamentos sobre a vida, existem as mesmas perguntas no espaço. Só não tenho certeza se há alguém para perguntá-las.

Minha única certeza é de que há vida no espaço. Quando digo vida não me refiro a criaturas ou vegetais, mas sim a um cotidiano. Assim como neste nosso planeta, as pessoas estão nascendo e morrendo o tempo todo, também estão as estrelas, no espaço. O mais curioso em nossos cotidianos é que assim como não sabemos o porquê ou não temos um motivo específico para estarmos vivos e existirmos, estes astros também não tem para brilhar.

Olhamos para este céu tantas vezes, em conversas imaginárias com divindades, nos perguntando o porquê de tantas coisas, com quem estrelas, planetas e cometas imaginam conversar aqui embaixo? As estrelas brilham para todas as pessoas desse mundo, estejam elas vendo ou não. Nossos camaradas celestes estão brilhando e executando seus movimentos assim como nós, quase imperceptíveis uns aos outros. Nós assistimos ao seu brilho, distante e dramático, enquanto eles observam nossa comédia e tragédia.

Somos tão conscientes, tantas perguntas, tantos sentimentos. São tantas coisas que se prendem na garganta e tantas que se soltam com alívio em uma soprada enérgica cheia de ar. Estes astros que explodem, colidem e se engolem estariam vivendo cotidiano semelhante? Estariam se expressando a sua maneira?

Imagino-me deitada em uma praia a observar o céu, que tem as mesmas perguntas que eu. Será que ele me encara, assim como o fito, em busca das mesmas respostas? Percebo que se for assim, essas respostas provavelmente nem estejam aqui ou talvez nem existam. Responder uma pergunta com outra é como cortar uma cabeça de hidra, dela surgem várias outras. Quanto tempo de evolução levará para atingirmos essas respostas?

Finalmente, encontro nossa diferença. Mesmo que as estrelas estejam morrendo, o cosmos viverá para ver a resposta chegar. Eu morrerei ao final deste século ou provavelmente bem antes. Sei que há na morte toda uma redenção, um grande alívio em que todos os sofrimentos acabam. Mas gostaria de viver mais, para poder ver mais. Uma vida bem vivida é claro, diferente da que tenho agora.

Sei que teria mais tempo para felicidade como para viver a amargura, mas também teria para ser testemunha. Sim, de bombas e genocídios, acordos de paz e desenvolvimento econômico, fome e riso, mas também o prazer temporário da presença de Halley e de toda a beleza da humanidade.

Embora sejam os próprios seres humanos que construam prédios como o que habito, é o céu que se parece mais conosco, muito mais do que imaginamos. Nossos feitos e pensamentos ainda vivem nas coisas que fizemos e pessoas que conhecemos mesmo um tempo depois da nossa morte, assim como aqui da Terra vemos o brilho de estrelas mortas.

Crônica dos cereais

Odeio encontrar metáforas em pequenas coisas, mas hoje mesmo, encontrei uma em meu cereal.

Odeio a maneira trágica como o cereal acaba. Você vai comendo pequenas porções em canecas muito fartas com leite, e um dia quando vai pegar a embalagem para se servir mais, percebe que está muito leve. Despeja tudo o que sobrou em outra caneca, que nunca fica cheia o suficiente e consume tudo, novamente, com leite. Isso tudo parece uma doença, parece a própria vida.

É como se ao viver intensamente nossas experiências, o final sempre será insatisfatório, as experiências prévias tornar-se-á menos prazerosas e procuraremos limitações para cortar os momentos e preencher, com esses pedaços, o final. Ou, resumidamente, comer menos cereal durante o processo de consumo, para que sobre mais no final.

Essa última experiência com o cereal, é frustrante, sem dúvidas, mas ao sentir que o cereal não foi menos saboroso do que nas outras vezes, concluí que de nada adianta limitar minhas porções, pois não necessariamente a caneca ficará cheia no final e todas as canecas de cereal anteriores não serão tão boas, ou, que de nada adianta limitar-se, pois viver intensamente é o que importa.