Eu sou o espaço

As pessoas sentem medo daquilo que desconhecem. Olho para o céu e tenho medo dele. Não como olho para o teto do meu apartamento e temo-o, com o céu há beleza. Não sei como o teto ou as partes deste prédio se sustentam. Estou consciente dos pilares e do concreto, mas é tanto peso… Meu prédio é incompreensível.

E muito mais incompreensível do que um prédio, é o céu. Assim como aqui na Terra temos nossos próprios questionamentos sobre a vida, existem as mesmas perguntas no espaço. Só não tenho certeza se há alguém para perguntá-las.

Minha única certeza é de que há vida no espaço. Quando digo vida não me refiro a criaturas ou vegetais, mas sim a um cotidiano. Assim como neste nosso planeta, as pessoas estão nascendo e morrendo o tempo todo, também estão as estrelas, no espaço. O mais curioso em nossos cotidianos é que assim como não sabemos o porquê ou não temos um motivo específico para estarmos vivos e existirmos, estes astros também não tem para brilhar.

Olhamos para este céu tantas vezes, em conversas imaginárias com divindades, nos perguntando o porquê de tantas coisas, com quem estrelas, planetas e cometas imaginam conversar aqui embaixo? As estrelas brilham para todas as pessoas desse mundo, estejam elas vendo ou não. Nossos camaradas celestes estão brilhando e executando seus movimentos assim como nós, quase imperceptíveis uns aos outros. Nós assistimos ao seu brilho, distante e dramático, enquanto eles observam nossa comédia e tragédia.

Somos tão conscientes, tantas perguntas, tantos sentimentos. São tantas coisas que se prendem na garganta e tantas que se soltam com alívio em uma soprada enérgica cheia de ar. Estes astros que explodem, colidem e se engolem estariam vivendo cotidiano semelhante? Estariam se expressando a sua maneira?

Imagino-me deitada em uma praia a observar o céu, que tem as mesmas perguntas que eu. Será que ele me encara, assim como o fito, em busca das mesmas respostas? Percebo que se for assim, essas respostas provavelmente nem estejam aqui ou talvez nem existam. Responder uma pergunta com outra é como cortar uma cabeça de hidra, dela surgem várias outras. Quanto tempo de evolução levará para atingirmos essas respostas?

Finalmente, encontro nossa diferença. Mesmo que as estrelas estejam morrendo, o cosmos viverá para ver a resposta chegar. Eu morrerei ao final deste século ou provavelmente bem antes. Sei que há na morte toda uma redenção, um grande alívio em que todos os sofrimentos acabam. Mas gostaria de viver mais, para poder ver mais. Uma vida bem vivida é claro, diferente da que tenho agora.

Sei que teria mais tempo para felicidade como para viver a amargura, mas também teria para ser testemunha. Sim, de bombas e genocídios, acordos de paz e desenvolvimento econômico, fome e riso, mas também o prazer temporário da presença de Halley e de toda a beleza da humanidade.

Embora sejam os próprios seres humanos que construam prédios como o que habito, é o céu que se parece mais conosco, muito mais do que imaginamos. Nossos feitos e pensamentos ainda vivem nas coisas que fizemos e pessoas que conhecemos mesmo um tempo depois da nossa morte, assim como aqui da Terra vemos o brilho de estrelas mortas.

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