A Banalização do Amor – Parte 1

Sinto-me extremamente cansada o tempo todo e agora a sensação é de bagunça em minha mente. Já está tarde e queria escrever essas palavras sobre alguém. Como as conversas com este indivíduo sempre aconteceram em horários mais noturnos e ele sempre entendeu a minha desordem sei que não há momento melhor.

Abro nessas linhas minha vida, meu coração e as coisas que vão além da carne para que sejam vistas. Visto a fantasia mais sincera, coloco a poesia em uma gaveta e pergunto-te, leitor, o que é o amor? Essa coisa classificada como “sentimento”, definitivamente tão confusa, é o que me obriga a tais ousadias. Ouso dizer que amor não passa de uma palavra e, como as coisas que acontecem em mim merecem muito mais do que um único vocábulo para serem descritas, acredito que tenham banalizado completamente a experiência de “amar”.

Seu nome é João. Eu ainda não havia assistido Beleza Americana para falar-lhe como a ideia sobre as belezas do mundo está esculpida no filme, mas ele sabe das minhas ideias. Com ele foi paixão às três palavras: livros, filmes e músicas. Seus livros comprados no metrô e as minhas investidas excêntricas na biblioteca da escola, seu computador que estragou e os eternos lamentos sobre a incompetência de Netflix num tablet e, sempre, Tame Impala. Nosso cotidiano coincidia, mas nossa visão não.

Falar sobre as belezas do mundo levou-me a repetir frases de películas cinematográficas. Veja como a palavra “ousada” soa infantil, mas é a única que retrata minha atitude. “Paixão sente-se no peito, amor sente-se na barriga” e faço a descoberta do século: ele não tem os mesmos olhos que eu para a beleza. Sabemos que dessa conversa saiu a verdade, no peito sentíamos vazio, na barriga sentíamos fome. João tinha, e acredito que ainda tenha, olhos para o mundo como ele é.

João é a verdade da minha vida. Entre todos os rostos barbados, corações mastigados e palavras suadas ele trouxe sinceridade aos meus dias. Nas tardes mais melancólicas em que eu tentava trocar minha tristeza por um pouco de poesia, esse ser humano destruiu qualquer tentativa minha de extrair graça das flores.

Ao que a imagem dessa criatura pode parecer com a de um assassino dos instintos mais sublimes dos homens, engana-se em sua interpretação quem assim o julgar. Ele faz um verbete infame passear pelo meu estômago e pela minha mente. Minhas dores ferem ainda mais o peito, mas este microcosmo é um emplasto de compreensão.

Sim, compreensão. Com João minhas dores, meus pensamentos e a minha vida são puros. Um universo exatamente assim, sem enfeites, sem adjetivos, sem dicionários. A porra do planeta Terra, o pontinho pálido, com todos os preconceitos, seus olhares sinceros e poucas vezes inocentes. Nosso mundinho da sujeira, dos pelos pubianos, dos vídeos pornográficos, dos seriados televisivos e do amor aos psicopatas.

E finalmente, não pensem que por seu jeito ser assim não há beleza nele. É com ele que eu me encontro. Não há beleza na verdade? Na justiça? Na própria dor? Esse cara não é um herói, um personagem ou mero sujeito das minhas frases. João ao trazer a verdade, a certeza e a sinceridade ao mundo, traz a afirmação da beleza que há ao nosso redor. Mostra-me sempre a evidência de que é no banal e nessas dores comuns, como a do tal amor, que a essência de ser humano está.

Assim como me traz asseveração e ousadias, uso seu nome pela última vez para tentar explicar a banalidade da própria palavra: amo João e não é só pela sua verdade ou humanidade. Podem contar quantas palavras este texto tem e saibam que não vai valer a pena resumir tudo isso e tantas outras coisas que nos envolvem com um único termo.

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